Por uma escola onde cada qual "já é gente"!

Hoje, escrevo enquanto psicóloga que contacta diariamente com crianças, jovens, famílias e equipas escolares e, enquanto mãe com o propósito muito claro de participar activamente nos inadiáveis e inevitáveis processos de mudança dos paradigmas de educação, em Portugal.

A todas as crianças às quais pergunto (e são muitas!) "o que mais gostas na escola?", invariavelmente a resposta é "o intervalo". Quando pergunto o que pensam das aulas, a grande maioria, entre aquelas que se atrevem a responder, atira com o vulgo "é uma seca...". As crianças quando não apresentam sucesso, ou quando se entediam até ao ponto que deixam de conhecer os seus sonhos, resta-lhes desistirem ou portarem-se mal (na melhor das hipóteses), passando a ser vistas pelos outros (e consequentemente por elas próprias) como burras, incapazes, preguiçosas, desmotivadas, hiperactivas, desatentas e tantos outros nomes feios que, impunemente, chamamos às crianças.

As escolas, no geral, parecem-se umas com as outros, construídas com base num modelo único ou, como Rúben Alves e Agostinho da Silva tiveram a ousadia de comparar, assemelham-se a fábricas e linhas de montagem ou a estabelecimentos prisionais.

Aos professores, por sua vez, cabe-lhes a inglória tarefa de nivelar todos aqueles que partilham a mesma idade cronológica, a um mesmo ritmo e cadência. Este fato poderia levantar um coro de manifestantes, ao invés, pouco mais parece fazer do que alimentar o discurso do "nada posso fazer". Assim, resta a muitos professores portarem-se mal, usando castigos, punições, ameaças de exclusão e de insucesso ou promessas de prémios e de sucesso futuro: "daqui a uns anos esta matéria será útil na tua vida"; "estuda para que um dia sejas alguém na vida"... como se a vida não estivesse a acontecer já ali e como se não fossem aqueles pequenos, já gente! Este discurso é replicado no seio das famílias, com pais e mães receosos do futuro incerto dos seus filhos, enquanto as crianças crescem ansiosas antecipando más notas e presenciando a frustração de todos.

Isto não significa que não existem profissionais sensíveis e empenhados ("que ainda estão vivos", como repete o Professor José Pacheco), que não existem crianças que ainda conseguem sentir-se felizes na escola, ou mesmo outras que tenham encontrado lá, o único lugar protector das suas vidas. Mas será que isso justifica que fechemos os olhos a tantos outros casos de insucesso, fonte de pressão e de infelicidade?; que não nos importemos com tantos factores de risco (ao nível da saúde mental e do trajecto de vida) que o tradicional sistema de ensino replica?; que nos acomodemos a um paradigma que não nos serve?

Não restam dúvidas de que estamos perante um modelo educativo com o qual professores, pais e crianças se sentem realmente insatisfeitos e o número de pessoas queixosas e despertas para a contradição de convivermos diariamente com um modelo que não queremos, não pára de crescer!

Num primeiro momento, as queixas de alguns pais e de uma grande maioria dos profissionais de educação, incidem na criança que parece defraudar as expectativas do adulto (e por conseguinte, as suas próprias). O que acho muito curioso, é que quando se procuram soluções de transformação da educação (do seu propósito, das metodologias, dos dispositivos pedagógicos) que vão ao encontro dos interesses, potencialidades e ritmos de cada um, a tónica do "discurso-problema" transfere-se da criança (das "dificuldades de aprendizagem", dos seus comportamentos) para os aspectos (políticos e administrativos) do contexto educativo: o número de crianças por sala; o peso da metas e de um programa destituído de interesse e significado para a criança; a exigência de classificar através de testes (que avaliam sobretudo as capacidades de retenção, de repetição e de reprodução); a escassez dos recursos humanos e materiais; os constantes concursos a que muitos professores são sujeitos; etc.

Então, se a tónica deixa de ser a criança e passa a ser, invariavelmente, o contexto, que se faça por mudar o contexto e se deixe de querer mudar as crianças para que encaixem em moldes que definitivamente não lhes servem. E não bastará reduzir o número de alunos, os programas ou introduzir mais tecnologia, serão necessárias mudanças que impliquem uma transformação profunda do olhar sobre a escola, sobre o que é aprender, o que é ser criança, ser pessoa e ser comunidade.

Com poderá então ser a escola do futuro. Ou, talvez faça mais sentido perguntar, como poderão ser as escolas do futuro?

Aquilo em que acredito, tal como milhares de pessoas com quem me vou cruzando e inspirado, é que teremos cada vez mais espaços (que podem continuar a chamar-se escolas ou comunidades de aprendizagem, ou qualquer outro nome) que, tal como tantos outros na comunidade, sejam locais privilegiados de trocas, de relações e, portanto, de aprendizagens. Nesses espaços existirão relações de afectos baseados em valores, onde cada qual é respeitado nos seus ritmos e necessidades. Lugares onde se contempla o desenvolvimento integral do ser humano (nas suas diferentes dimensões física, mental, emocional, social...). Espaços onde cada um pode participar activamente na sua educação, com poder de decisão sobre o seu próprio percurso, alimentando-se de aprendizagens significativas no presente. As crianças poderão descobrir e explorar o seu potencial, ao seu ritmo com orientação do adulto e com metodologias que priorizam a investigação, exploração, experimentação e acção. A avaliação ocorrerá em formatos diversificados, sem o peso excessivo da classificação, auxiliando na tarefa de compreender onde estou, onde quero estar e como posso lá chegar. Em suma, espaços onde maioria das crianças e adultos possam querer estar e possam querer voltar.

É verdade que se observa um envolvimento cada vez maior dos cidadãos, visualizando ou materializando os seus sonhos de uma nova ideia de educação. Felizmente, alguns projetos diferenciados vão surgindo em Portugal e estou certa que, em breve, muitos outros irão coexistir com os de natureza mais tradicional, até que, aqueles que não mergulharem num processo de transição, acabarão por se extinguir. Sabendo que a mente nos bombardeia de pensamentos de julgamento sobre aquilo que rompe com o "velho", apelo a que possas observar com abertura e curiosidade o que surgir de novo.

Digamos não a uma escola que visa formar alguém "para um dia ser gente" e digamos sim a uma escola que acredita que cada qual "já é gente". 

Laura Bettencourt

PSICOEQUILÍBRIO

Psicóloga/Psicoterapeuta; Coach; Educadora Parental (UC); Facilitadora de Parentalidade Consciente (APC) e de Disciplina Positiva (PDA).